PEDRO MINHONI 12/06/2018 22:29

O começo do Fim do Mundo

Foto: Divulgação

A insatisfação, a falta de representatividade, a pobreza e o caos político e social foram alguns dos muitos pontos que propiciaram o surgimento de um movimento musical, com proporções sociais, que questionou, estremeceu e reconfigurou diversas estruturas já datadas da nossa sociedade. Oriundo na metade dos anos 70, o punk rock, invadiu de forma rápida e agressiva os anos 80 com características e atores próprios, debochando e fazendo à sua maneira o que considerava certo e errado.

Com o surgimento dividido – existe um “embate” sobre a exata origem do movimento entre Estados Unidos e Londres – o punk rock, como música e estética, era muito diferente de tudo que vinha acontecendo na indústria até então. Com grandes astros e estrelas intocáveis do rock, solos de guitarra intermináveis, técnica e perícia avançadas, luxo e glamour, eram todos muitos avessos, impraticáveis por toda uma juventude suburbana de ambas as regiões. As batidas rápidas, a distorção, o linguajar direto, um visual simplório e agressivo de cabelos e calças jeans rasgadas vinham como alternativas acessíveis, da ruptura de um status quo vigente possibilitando assim, que qualquer indivíduo tenha voz e som, a sua maneira e do jeito que for possível.

 No Brasil, a coisa toda não foi muito diferente, mas contou com situações específicas em seu início. O acesso aos acontecimentos da cena e aos sons das bandas, em um primeiro momento, só foi possível através dos grandes meios de comunicação – como reportagens da Revista POP, do Fantástico – e ou pela aquisição dos discos por importação, que acabava sendo realizado por pessoas mais abastadas. Encontrando respaldo na parte sonora – muitos já não aguentavam mais os monstros sagrados da MPB e temiam a perpetuação da brilhantina – o punk no Brasil fez seu caminho nas periferias e subúrbios de grandes centros urbanos, lutando contra a constante repressão militar (ainda estávamos em ditadura e qualquer conglomerado de pessoas não era visto com bons olhos), foi criando mecanismos próprios para o consumo e acesso as temáticas do movimento como fanzines (formato de revista xerocada feito pelo “fã” e sem intenção de retorno financeiro) e a socialização das fitas k7, responsáveis por muitos dos shows e festas da época.

Reconhecer o cenário do nascimento do punk rock vai muito além da delimitação geográfica-espacial. Guardando as grandes diferenças sociais entre as Américas e Inglaterra, a subversão, a pobreza, a insatisfação são sentimentos, são situações muitas vezes comuns nos locais focalizados e que acabam gerando pontos de semelhança entre essas populações, principalmente os jovens. O DIY é um deles. Incapacitados nas mais diversas facetas, o sentimento de abandono social, político e cultural encontra resposta na atitude, no faça-você-mesmo, que é exibido na crítica e no posicionamento dos envolvidos, da música rápida e dos cabelos arrepiados até meio próprio de comunicação, transparente tanto em terras tupiniquins como no exterior.

Tamanha crítica, agressividade e atitude não são homogêneas e sempre bem intencionadas. Em meio à um cenário político característico – o governo Thatcher, a Guerra Fria e a ditadura militar no Brasil – o movimento punk se constituiu posicionando opinião sobre tais assuntos, seja pelo deboche, pela morte dos ídolos ou propor um governo anárquico em terra de realeza. Se uma maioria utilizava da situação para a apropriação de símbolos por descaso ideológico e praticava o pogo por simples diversão, outra grande parcela dos envolvidos utiliza as mesmas ferramentas como forma de validação de atitudes violentas e anti-semitas. Não é incomum, mesmo hoje em dia, a confusão entre os punks e grupos como os carecas, por exemplo, grupos com visões divergentes em muitos pontos.

Sem medo e interesse na aceitação alheia, o punk rock trouxe à tona toda uma energia reprimida de uma parcela jovem que não se via representada tanto nos políticos, como nos artistas da época, fazendo as coisas à seu modo e maneira, com as ferramentas que tinha ao alcance da mão. Se não podemos definir com precisão seu nascimento, tampouco conseguimos tratar do seu fim onde cada jovem inconformado e disposto a tomar uma atitude, muitas vezes musical, está por reviver a mensagem do do it yourself.

           

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